domingo, 13 de janeiro de 2013

O café dos benditos!

Acabei de passar um café cheiroso. Apesar de não ser um apreciador da bebida, adoro o cheiro do café. Faço café em casa raramente, pois acabo usando o solúvel por comodidade, diretamente no leite. Mas em compensação faço café para os professores do Liceu Municipal e do Colégio Pedro II. Faço café também na casa dos meus pais, na casa de meus sogros e quando visito amigos queridos, sem contar na casa de parentes mais próximos.
Tornou-se um ritual cheiroso em minha vida. Costumo acrescentar canela em pó ou aniz estrelado ou ainda, uma colherzinha de chocolate de 1a. qualidade. Assim, o cafezinho que brinco de fazer, passa a ter um toque gourmet. Aprecio cafés diferenciados (em pó ou grão). Sentir o aroma e o sabor é um ritual de muito prazer, que só faz sentido quando aproxima as pessoas. Não costumo tomar café sozinho, mas bem acompanhado. Sinto falta de longas conversas regadas a um café passado no coador de pano e servido em um bule bicudo.
Perguntei a minha mãe se ela podia me dar o seu bule para mim. Mas ela disse que existiam maneiras mais modernas de fazer um bom café e afirmou que eu estava envelhecendo. Achei o máximo e desliguei o telefone feliz e determinado em encontrar um bule das antigas.
Sinto falta de longas conversas com quem tenho afinidades. Faltam oportunidades para encontros. O tempo parece não ser suficiente, além de correr contra nós.
Muito me orgulho da minha memória. Sinto orgulho do que já vivi e acho que o saldo foi muito positivo, considerando que estou envelhecendo com muita tranquilidade. Sempre me deram mais idade do que realmente tenho, tanto por minha aparência física como por meus pensamentos.
Fui preterido na infância e adolescência por me comportar diferente. Lembro-me quando o meu avô materno, sorteou a sua atiradeira de infância entre os netos presentes. Eu fui o ganhador e fiquei revoltado em saber que era para matar passarinhos. Devolvi ao meu avô na hora, que ficou visivelmente constrangido. Sempre odiei pássaros em gaiolas. Todos que eu pude libertar, libertei. Libertas que será também, aprendi na adolescência.
Agora há pouco, minha filha e sua melhor amiga chegaram aqui em casa pedindo uma caixa de sapatos. A caixa serviria para colocar uma velha sabiá encontrada tonta em meio ao jardim. As meninas nos apresentaram a sabiá, que parecia estar abatida, mas não ficava de pé. Providenciaram alpiste obtido na vizinhança. Deram para a pobre ave água pela seringa e um pouco de banana amassada que foi consumida rapidamente. Agora foram levar a sabiá para passear e assim respirar ar puro.
Tenho para mim que estar presente (de corpo e alma) diante das situações cotidianas, é uma boa forma de viver leve e sem apegos desnecessários. Hoje achei surpreendente o que li na coluna de Martha Medeiros e que retrata perfeitamente o que venho sentindo. É arrebatador e libertador ao mesmo tempo.

"Benditos os que conseguem se deixar em paz. Os que não se cobram por não terem cumprido suas resoluções, que não se culpam por terem falhado, não se torturam por terem sido contraditórios, não se punem por não terem sido perfeitos. Apenas fazem o melhor que podem. Se é para ser mestre em alguma coisa, então que sejamos mestres em nos libertar da patrulha do pensamento. De querer se adequar à sociedade e ao mesmo tempo ser livre".
 
 

 
 

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Hoje é Dia de Reis

Hoje é o Dia de Reis. Acordei hoje querendo ouvir uma voz que me é familiar há 50 anos. E não perdi tempo. Logo que pude, liguei para uma das minhas primas mais amadas que aniversariava hoje. Apesar de estar distante fisicamente, a única forma de contato que tenho com ela é um celular, pois nem o seu endereço tenho. Mas não existe distância que diminua o que sinto por ela.
Fiz a ligação um pouco antes da hora do almoço, de forma a não interromper a sua refeição, pensei eu. As palavras trocadas foram poucas, mas suficientes para que eu soubesse que ela estava bem. Nossa amizade é antiga e por muito tempo aprendi, observando suas grandes limitações físicas, a ser um primo presente e disponível a ajudar. Foi bom ser ouvido e reconhecido depois de tanto tempo. Melhor ainda, ouvir a sua voz.
Cresci convivendo com as dificuldades e dramas que ela passou e nunca fui capaz de tratá-la com diferença. E olha que eu aprendi cedo o significado da palavra preconceito.
Havia dentro de mim um profundo respeito diante do sofrimento que ela experimentava diariamente. A paralisia cerebral trouxe um grande comprometimento em seus movimentos, mas não foi capaz de afetar o amor espontâneo e a cumplicidade que surgia entre nós. Apenas pessoas muito fortes seriam capazes de sobreviver diante de desafios dessa ordem. Assim, minha prima era uma guerreira aos meus olhos.
Meus primos e primas achavam que eu era bobo, afinal qual era a graça em brincar com ela? Pude sentir com clareza o quanto foi rejeitada por sua condição especial e os olhares preconceituosos que a excluíam continuamente da convivência do "mundo dos vivos".
Por outro lado, via uma relação de amor intensa com sua mãe. Esse amor também trazia um misto de revolta, que por vezes fugia ao controle.
Acompanhei-a bem de perto até a idade adulta e o agravamento de seu quadro físico. É uma agonia lenta e cruel, que a levou hoje a ficar a maior parte do tempo em uma cama. Sem contar, os remédios fortes usados para controlá-la, que prejudicam sua fala e seu raciocínio.
Não sou mais capaz de descrever o que sinto por ela. Eu apenas sinto o quanto a amo, apesar da distância física. O que vivi ao seu lado foi suficiente para solidificar uma amizade para sempre. O amor que ofertei e recebi, únicos. Isso faz uma diferença na minha vida e creio que na dela também, mesmo que não tenha a plena consciência.
Recordo-me da minha determinação em fazê-la andar de bicicleta sem rodinhas! Quantas vezes com muito orgulho a segurei para que pudesse dar pequenos passos. Era legal pedir para que me penteasse (quando eu tinha cabelo), ou quando ao voltar da praia, pedia a sua ajuda para retirar a pelinha das minhas costas!
E quanto aos seus inesquecíveis aniversários? O cachorro-quente maravilhoso, o bolo de amendoim, recheado de leite condensado e ameixa e o refrigerante de Q-suco?
Legal era ver quase toda família reunida para o ruidoso "parabéns para você"! Tínhamos muito o que comemorar. Ela era e é uma guerreira e a cada aniversário, mas uma vitória para ser comemorada. Esse momento era uma celebração para ela, pois nos via todos juntos.
 
Hoje vejo a minha filha agindo com a mesma paciência e carinho com uma amiga especial. Eu toda vez que vejo as duas juntas, preciso lutar para conter as lágrimas. Seria como sentir aquilo que já experimentei por muitos anos. Mas me orgulho muito de ter semeado esse amor desprendido em minha filha e vejam, eu sabia que tinha feito.
Hoje a minha prima irmã faz 50 anos. Pela primeira vez não vou poder abraçá-la, beijá-la e segurar as suas mãos. Não vai ser possível olhar em seus grandes olhos castanhos e brincar com sua idade. Não tínhamos muitos assuntos em comum, mas as mãos estariam juntas, assim como a nossa cumplicidade de tantos anos.
Já pedi a Deus por milagres e vê-la curada seria o maior deles. Mas tenho que aceitar a realidade, que esse milagre não aconteceu por uma razão que ainda desconheço. Mas eu creio que um dia Deus me dará a oportunidade de encontrá-la livre da prisão em que seu corpo vem se transformando. Nesse dia, estarei realizando um encontro tão esperado. O amor que sinto por ela estará intacto para esse encontro.
Parabéns, querida Lulu! Que Deus te guarde e abençoe em seu infinito amor.

Sentido

Sentido
Uma das melhores maneiras de dar um sentido para a vida, é procurar deixar o mundo um pouco melhor do que nós o encontramos. Autor desconhecido

Viver: renúncia, prazer, amor e leveza

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Um professor com alma de aluno.