sábado, 29 de novembro de 2008

Tragédias pessoais

Tenho observado com muita angústia o drama da população de vários municípios de Santa Catarina, estabelecidos na planície fluvial da bacia do rio Itajaí-Açu. Os índices pluviométricos foram dignos de um dilúvio bíblico. Choveu em apenas um dia, 399mm, quando a média mensal para novembro é de 177mm. O somatório de 5 dias, supera os 1.000mm, bem próximo da média anual para a região. O nível dos rios se elevou em 10 metros, destruindo e inundando tudo pela frente. As encostas aparentemente mais seguras, deslizaram dramaticamente, pois ficou claro que o nível de saturação do solo foi superado. Continuo perplexo com as imagens, não só como pesquisador/professor, mas como ser humano que sente compaixão pelas pessoas que perderam tudo, menos a vida, felizmente.
O depoimento de uma sobrevivente me fez chorar. Ela perdeu toda a família em uma noite. Ouvia gritos desesperados por ajuda de seus parentes sendo arrastados pela correnteza sem que nada pudesse fazer. Perdeu esposo, filhos, pais, irmãos e sobrinhos para um pequeno córrego que costumava brincar quando criança. Perdera todos os bens pessoais e até o emprego, pois a fábrica onde trabalhava desapareceu.
Resgatada e ferida em meio a confusão entre bombeiros, militares e repórteres, disse que acabava de renascer. Agradecia a Deus a nova oportunidade, mas não sabia por onde começar a nova vida. Não sobrou nada de sua vida anterior, apenas as lembranças do que havia sido e do futuro, mal sabia o que esperar. Disse também, que acreditava não perder mais nada, pois já haviam lhe tirado tudo. Não tinha nem fotos que pudesse guardar como lembrança, na hora em que a saudade doesse. O bairro pobre em que viveu toda uma vida, também estava irreconhecível.
Doloroso foi ouvir dessa senhora, que não conseguia mais se lembrar dos rostos das pessoas que amava. Recordava-se apenas das águas barrentas levando embora sua família e sua vida.
Chorei, pois não há como ser insensível a esses dramas a que estamos sujeitos. Começar do zero é um desafio, mas perder a quem amamos de uma forma tão trágica, só sendo muito, muito forte.
Muitas vezes ainda lamento as pequenas perdas que tenho tido na vida. Logo depois vejo que não foram perdas reais, pois percebo que não eram tão importantes e que poderia viver sem elas. A mesma situação se aplica para pessoas que pensávamos ser insubstituíveis. Quando a distância cria abismos muito largos, não há como construir mais pontes. Imagine quando você perde tudo e todos que amamos de uma vez só. Esses se tornam insubistituíveis!
Espero que todo esse sofrimento acabe logo. Que todos possam não só reconstruir suas casas, mas suas vidas. Ser solidário é fundamental nessas horas de angústia. Ajude como puder, seja através de doações ou de uma simples oração para que não desistam sob nenhuma condição. Peça para o desconhecido aquilo que de melhor quer para você.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Falo sozinho, mas não moro sozinho.

Sempre que estou só, sento aqui e escrevo. Mas nem sempre isso é possível, daí começo a conversar comigo mesmo. Passei a ter o hábito de falar sozinho quando fui morar sozinho. Muitos acham que fiquei meio "pirado", mas é muito bom verbalizar meus pensamentos com total intimidade.
A princípio, buscava espelhos para falar. Era interessante olhar dentro de meus próprios olhos e observar as expressões faciais, à medida que praticava o meu monólogo. Depois fiquei mais corajoso e desandei a falar sozinho. Quando cozinhava, estudava ou arrumava o apartamento. O papo muitas vezes ficava tão animado que sentia que o apartamento ficava repleto de sons. Parecia que rolava uma tremenda festa.
Descobri que eu era (e sou) uma companhia legal e bem humorada para mim mesmo. Descobri que poderia ser feliz, caso decidisse viver assim, sem ninguém. Percebi também que não teria como depositar a minha felicidade em ninguém.
Era preciso que antes me amasse bastante. A partir daí, poderia escolher entre esses dois caminhos. Continuar comigo mesmo ou constituir uma família. Optei pela segunda opção e não me arrependo. Apesar da autonomia emocional e do fortalecimento de minha auto-estima, partilhar a minha vida com as pessoas que amo é muito mais enriquecedor.
Dias atrás pensava no que tive que vivenciar e experimentar para ser o que sou e ter o que tenho. Não posso dizer que a vida foi madrasta comigo. O que tenho não faria o menor sentido se não fosse o que sou hoje.
Aprendi que não se pode ter tudo o que se sonha, mas o necessário para viver com dignidade. Era importante usar todas as ferramentas disponíveis de maneira eficiente, mesmo que isso significasse abrir mão do que havia conquistado logo depois.
Aprendi que tenho que levar a sério o que falam para mim e não o que falam de mim.
Aprendi que não se pode ser disponível e solícito o tempo todo. Dizer "não" educadamente me faria sentir bem e ajudaria ao ouvinte mais ainda.
Aprendi que não se pode perder a esperança e a fé, por pior que esteja o mundo ao seu redor. Por pior que sejam as pessoas ao seu redor.
Aprendi que dar boas gargalhadas e um bom bate-papo renovam energias, principalmente quando estamos cercados de amigos verdadeiros.
Aprendi que escrever, em qualquer situação, ajuda-me a perceber os desafios diários. Pois toda vez que escrevo, secretamente descubro a solução para todos eles.
Aprendi a importância de ser responsável por meus atos e deixar os meus pensamentos ruminantes longe de mim.
Descubro que não tenho como contabilizar perdas em minha vida, mas de creditar ganhos enormes e crescentes.

sábado, 15 de novembro de 2008

Repassando uma idéia

Aprendi que um homem só tem o direito de olhar outro de cima para baixo, para ajudá-lo a levantar-se.
Gabriel Garcia Marquez



Andando sentado

Depois de uma semana bem atribulada de trabalho, finalmente estou tendo a chance de escrever um pouco. Não vou falar de trabalho, pois é muito chato falar de trabalho quando se está cansado e pior ainda, falar de dinheiro quando se está duro. Ninguém merece ouvir ou ler isso. Eu nunca gostei de ficar me lamentando. Prefiro agir, pois se me cabe fazer, faço. E que bom que posso fazer e tenho iniciativa de sobra, aliás, minha filha também! O único problema que tinha, era de me sobrecarregar com um prazer imenso. Agora, permito que cada um faça a sua parte.

Tive três dias desafiadores. Na última 6a. feira, acordei com uma dor lombar terrível, sintomas da velhice chegando. Levantei cheio de dores e comecei a andar sentado. Lembrei-me de imediato de uma tia de 80 anos, que por força da velhice anda desse jeito e das boas gargalhadas que eu e minha irmã demos ao vê-la andando desse jeito. Resultado, aos 47 anos andava como se estivesse com mais de 80! Fui ao médico, tomei medicamentos e hoje já voltei aos meus 47 anos, lépido e fagueiro.

Na 2a. feira, quando chegava em casa com minha filha, depois de ter ido pegá-la na escola, aconteceu de novo. Parei e dei seta para entrar em minha rua. Logo atrás de mim pára um vistoso Corolla. E logo depois, vem um Fiorino destrambelhado que não conseguiu parar. Resultado. Ele acabou batendo na traseira do Corolla, que por sua vez bateu na traseira do meu Palio. O meu prejuízo foi pequeno e nem vou pagá-lo, mas a seguradora do Corolla. Este virou uma sanfona por conta da frágil carroceria. E o Fiorino culpado, teve pequenas avarias no para-choque e radiador.

Depois de me certificar que minha filha estava bem, ví que valeu a pena ter brigado com ela para que se sentasse na cadeirinha e fosse "amarrada" no cinto de segurança.

Saí do carro e fui averiguar o impacto. Junto comigo, sai furiosa a dona do Corolla esbravejando que estava indo para o Rio de Janeiro. Logo depois chega o motorista do Fiorino arrasado. Pedia desculpas e dizia que nunca havia batido na vida. Eu saí logo dizendo: a primeira batida a gente nunca se esquece!

O trânsito ficou caótico por conta do sinistro. E depois de 1hora e 30 minutos tentando falar com a polícia, a funcionária de uma loja de estofados, foi gentil em ficar tentando fazer contato com a Delegacia, pois nossos celulares descarregaram nos primeiros 30 minutos de tentativas.

Enquanto a polícia não chegava, a saída era acalmar-mos. E o bate-papo rolou naturalmente. Eu estava sereno e consegui acalmar os outros dois motoristas: um se sentia culpado e a outro, fumava um cigarro atrás do outro. Logo a seguir, minha esposa chega e leva minha filha para casa. E lá ficamos a esperar. Que bom que a polícia demorou. Trocamos placas, telefones, cartões e e-mails. Discutimos política, salários e perdas ao longo da vida. Descobrimos que nosso encontro forçado tinha um propósito e ele aconteceu. Tomamos decisões práticas e com muito bom senso e terminamos dando gargalhadas e batemos palmas quando finalmente a polícia chegou com seu carro semi-detruído.

Antes disso, pude observar os motoristas e passageiros de ônibus que nos olhavam com ar de reprovação. Quando percebemos os olhares passamos a rir muito. Todos deviam estar pensando que éramos loucos, pois foi uma tripla colisão e estávamos atrapalhando bastante o trânsito. Mas fazer o quê?

Muitos conhecidos e vizinhos me ofereceram carona. Outros me disseram que estavam arrasados com o que havia acontecido com o meu carro com apenas 1 mês de uso. Fiquei bolado, como dizem meus alunos.

O que de fato era importante? Estávamos todos vivos. Isso era mais importante do que qualquer pedaço de lataria amassada. Foi muito bom ter participado desse "tripa colissão" (foi assim que escreveu o policial no boletim de ocorrência). Reencontrei um amigo depois de muitos anos e conheci uma pessoa muito especial, que "tirava de letra" a situação, pois depois de tantas perdas, já estava calejada e via a situação com uma naturalidade surpreendente, passado o susto inicial. Sabe o que mais me cativou nessa senhora? Não havia o menor sinal de amargura ou dor. E posso garantir que suas perdas foram enormes! Não posso dizer quais foram. É mais um segredo de amigo que guardo.

E finalmente, depois de uma 3a. feira sufocante no Rio de Janeiro em novembro, acomodei-me na poltrona do ônibus para Petrópolis. Adormeci rápido dentro daquele ambiente climatizado. Ainda vi alguns cariocas presos dentro de ônibus urbanos acalorados e suando "em bicas". Adormeci e sonhei que chegava em casa. Jantaria antes de dar aulas no período noturno.

Acordei depois de 2 horas de viagem. Estava parado dentro do túnel da Rio-Petrópolis. Depois de 3 horas, em meio a uma chuva pesada chegamos na Rodoviária. Perdi as três primeiras aulas, não jantei e ainda tive que falar com o meu diretor o que havia acontecido.

Como sempre acha que estamos mentindo, entreguei-lhe o atestado médico, o boletim de ocorrência da colisão e a passagem do ônibus.

Não sei o que passa em sua cabeça, mas fiquei feliz em perceber que ele ficou perplexo com as provas que lhe dei.

Por que será que temos que provar às pessoas o que somos e o que fazemos? Dá uma vontade danada de mandar essa gente para o espaço sideral. Mas é bom esperar o momento certo para "dar o troco" e deixá-las mudas e sem ação. Eu gosto do elemento "surpresa" em muitas situações.

domingo, 9 de novembro de 2008

Vamos fazer a diferença


Quais são as dificuldades reais de cada um para tornar o nosso caminho vida?

A maior dificuldade é estar continuamente envolvido nele. Ter consciência dos efeitos que causamos com nossos pensamentos e sentimentos no meio em que vivemos é um trabalho que nos exige um envolvimento real em nosso caminho.
Muitas vezes, somos capazes de perceber que um pensamento ruim é prejudicial, primeiramente a quem nos dirigimos e depois a nós mesmos. A mesma situação, acontece quando falamos, tomados pela emoção e não fazendo uso de nossa racionalidade e desprendimento. Um pensamento ruim em nada nos acrescenta, apenas nos coloca em uma posição defensiva em relação ao que nos cerca, impedindo-nos de ter uma percepção mais abrangente e humana.
Tenho sido levado a rever meus pensamentos e a maneira pela qual me coloco diante das pessoas. Se buscamos uma vida com maior significado e sentido, precisamos aprimorar, ampliar ou até mesmo descartar posturas herdadas que foram construídas ao longo de nossa vida.

No dia-a-dia, somos envolvidos por situações que nos obrigam a agir e falar de forma diferenciada para cada pessoa. Neste momento, não podemos usar a separatividade, pois ela desagrega, mas o bom-senso e o respeito para tomar atitudes firmes e ao mesmo tempo, amorosas.
Mas é importante, que a nossa realidade não nos deixe cegos para perceber o quanto somos semelhantes. Todas as almas merecem atenção, assim como seus pontos de vista e atitudes, mesmo que sejam contrários a nós.
Assim, deixamos de fazer parte de um mundo diferenciado, e passamos a fazer a diferença no mundo. É importante perceber que isso não nos torna melhores ou superiores, mas nos possibilita criar condições para que nossas palavras e atos tenham um significado maior e consigam abarcar um número maior de seres humanos. Façamos isso dentro da humildade silenciosa do coração.
Sempre soube que os atos falam mais que as palavras. Mas as palavras quando bem usadas, podem potencializar nossos atos e estimular nosso crescimento espiritual. Como é importante mudar pontos de vista e criar novas possibilidades!
Lembrar no dia-a-dia o pensamento mais negativo ou a palavra mais cruel que fazemos uso para nos defender ou atacar, dependerá do grau de consciência e percepção que temos de nós mesmos, e até da possibilidade real de estarmos equivocados.
Da mesma forma, o pensamento mais positivo e as palavras mais doces, quando ditas com sinceridade, podem ter um poder de expor o que melhor temos dentro de nós, o amor incondicional e o reconhecimento que estamos no caminho cheio de possibilidades.
(Síntese do meu trabalho de Cafh para 2008)

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Janelas da alma

É muito ruim quando fica evidente a nossa incapacidade real de se colocar diante de uma injustiça. Pude presenciar a situação com uma pessoa que aprendi a respeitar e que se tornou uma amiga única e especial. É uma das pessoas mais sensíveis e resistentes que conheço. Entretanto, diante de uma situação que fugia ao seu controle, tornou-se uma vítima de si mesmo.
Sua voz ficou trêmula, sentia dores no peito e seus olhos umidecidos estavam repletos de dor. Mal conseguia verbalizar o que sentia. Sentia-se impotente e culpada por não ter sido capaz de evitar o inevitável, de controlar o incontrolável e principalmente, de fazer uso do direito que temos de deixar transparecer com clareza a justa indignação.
Eu mesmo lhe disse, que a situação poderia ter acontecido com qualquer um de nós, e possivelmente desatentos, sequer perceberíamos. É comum em nosso cotidiano, deparar-mos com pessoas que não conhecemos verdadeiramente, até que se revelam.

Somos vítimas da educação que tivemos e do meio em que estamos inseridos. A educação que recebemos nem sempre nos torna aptos a superar os desafios que nos aguardam. Vamos desconstruindo com o tempo muitos valores que nos são passados. Ora por não mais se adequarem ao mundo em que vivemos, ora por nos tornarem inaptos de tomar atitudes corajosas e destemidas, deixando-nos paralisados e perplexos diante da vida.
Mas nem tudo está perdido. A família ainda continua sendo um alicerce fundamental para nós. Os pais querem o melhor para seus filhos, mesmo que errem tentando acertar. Não há mal algum em reconhecer que nossa educação, apesar de suas falhas, também nos permitiu chegar até aqui. E ainda que muitos valores perdessem o sentido com o tempo, outros permanecerão por toda nossa vida.
Mostrar desequilíbrio é inaceitável para muitas famílias, cujo padrão moral é muito rígido. Todos nós, homens, já ouvimos essa frase: "Homem que é homem não chora, e quando chora, chora para dentro". Que bom saber que "chorei para fora", mesmo presenciando a angústia de meus pais.
É uma tentativa muito cruel estandardizar a vida, o comportamento, os objetivos e os sonhos. Passei muitos anos procurando ajustar-me a esses padrões, mas creio que não consegui. Alguma coisa sempre dava errado, para minha alegria e deleite. Não tinha consciência exata do que acontecia, mas me sentia aliviado quando conseguia agir com independência.
O meu amadurecimento como se humano foi ajustando a minha percepção do mundo. Foi necessário descartar um peso enorme que trazia nos ombros para que pudesse reconhecer o que faltava na minha existência. Comecei tirando os apoios desnecessários e continuo fazendo até hoje. À medida que reconhecia e descartava o supérfluo, conseguia me observar com clareza e ver quem de fato sou e as pessoas que estavam ao meu lado.
Já escrevi em vários "posts" o quanto me descobrir tem sido importante. Sinto como se pudesse ousar mais na vida e aproveitar todo meu potencial disponível e subaproveitado. Minhas possibilidades jamais se esgotarão. Esse é um privilégio de todos nós, pena que poucos ousam usufruí-lo.
Volto a lembrar dos olhos repletos de dor. Espero que minha grande amiga seja capaz de perceber o quanto de humano temos que preservar dentro de nós.Os olhos são mesmo as janelas da alma.

domingo, 2 de novembro de 2008

Natal I

O Natal já está mostrando ar de sua graça. Mas o que é isso? Ainda estamos no segundo dia de novembro! Mas o Natal chegou para muitas famílias. Já pude observar em meu condomínio, alegres guirlandas nas portas e árvores de Natal repletas de luzes coloridas. Não seria cedo demais para comemorar um aniversário que ninguém esquece? Por que tanta pressa? Será que todos tem idéia do seu significado?
Sempre senti o cheiro do Natal no ar, mas no mês de dezembro. Era muito gostoso chegar na casa de meus pais (quando eu morava com eles) e sentir o cheiro das frutas, organizadas em uma fruteira por minha mãe. Aquele "mix" de aromas de abacaxi, uvas, maçãs, pêras, ameixas vermelhas, mangas, cerejas, morangos, figos etc lembrava-me da proximidade do grande dia. Era o período de grandes faxinas. Lavavam-se as cortinas, arrumavam-se armários e gavetas e principalmente, jogava-se fora os cacarecos acumulados ao longo do ano.
Me dava uma sensação de renovação o Natal.
Por mais difícil que tenha sido o passado, meus pais faziam tudo para que o Natal fosse a data mais esperada e nossa casa tinha que estar preparada para tal. Além de limpa, organizada, decorada e cheirosa, nossa casa aguardava também o Novo Ano.
Eram tempos difíceis, muito difíceis, mas repletos na esperança de pequenos milagres. Não havia como esperar grandes milagres, mas se os pequenos fossem acontecendo lentamente, juntos tornariam-se um grande.
A nossa ceia não possuía exageros. Comíamos com enorme prazer o que estivesse no prato. Minha mãe sempre arrumava a mesa com muito bom gosto e capricho. Meu pai limpava os talheres e copos com álcool para que estivessem brilhantes. O vaso repleto de palmas amarelas, não concorria com nossa árvore de Natal com bolas coloridas e decoradas, que passavam o ano guardadas em caixas de papelão no armário mais alto, salvas de minhas mãos curiosas em tocá-las.
Lembro-me de um Natal que me marcou para toda vida. Eu não ganhei nada de presente. Apenas a minha irmã ganhou uma boneca. Eu entrava na adolescência. Não havia dinheiro suficiente. Mas havia uma certeza tão grande no ar de que tudo iria dar certo, que ceiamos arroz, batatas cozidas e guaraná como se fosse um banquete. A vitrola tocava sem parar um "long play" de músicas natalinas - A Harpa e a Cristandade - que criavam um clima especial, como se o Papai Noel fosse descer pela chaminé (lá em casa nunca teve chaminé) ou passar pelo buraco da fechadura, como minha mãe me fez crer quando criança.
Eu nem dei falta do presente, aliás, foi neste Natal que pude perceber que os presentes não significavam nada para mim. Era muito mais importante estar com minha família, sob qualquer circunstância. A partir desse Natal, eu soube que seu espírito e significado estariam sempre presentes na minha casa, na minha família e em meu coração não só no dia 25/12, mas ao longo de toda a minha vida.
Pode parecer simples criticar o consumismo e o desperdício que foram incorporados a data, mas longe de criticar é preciso resgatar o seu valor. O aniversariante agradece.

Sentido

Sentido
Uma das melhores maneiras de dar um sentido para a vida, é procurar deixar o mundo um pouco melhor do que nós o encontramos. Autor desconhecido

Viver: renúncia, prazer, amor e leveza

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Petrópolis, Rio de Janeiro, Brazil
Um professor com alma de aluno.