terça-feira, 27 de agosto de 2013

Como é bom dar gargalhadas!

Há poucas semanas venho desmistificando antigos paradigmas. A sensação que tenho experimentado tem me trazido uma felicidade única, uma alegria que não sentia há anos, que me faz gargalhar até quando estou só. São descobertas que trazem um ponto final em angústias e meias verdades, que foram usadas unicamente para me conterem e reprimirem desde a minha infância.
A nova interpretação que estou construindo para o meu presente e futuro é clara e libertadora. 
Lembro-me de minha 1a. comunhão com angústia e raiva. Fui levado a acreditar que ao receber o corpo de Jesus na hóstia, estaria liberto e perdoado pelos meus pecados, no auge dos meus 11 anos.
Sabia todas as orações, lia a Bíblia com frequência e fazia as atividades religiosas com prazer. Meu caderno de catecismo era o mais caprichado da turma. Recebi muitos santinhos por minha bonita caligrafia e acreditava de verdade em tudo que ouvia da D. Auda, uma irmã catequista.
Era importante se redimir das falhas e muito cedo compreendi que precisava do perdão. O perdão era fundamental diante do pecado. Éramos todos pecadores em potencial e qualquer deslize, a fama de pecador tornava-se visível, tornando-nos impuros diante do mundo. Portanto, tínhamos que pedir sempre o perdão a cada vez que confessávamos envergonhados diante de um padre, sempre impaciente diante de nossas faltas. Muito cedo descobri o poder paralisante da culpa. Ajoelhar-se era a humilhação máxima do pecador e quanto maior a dor nos joelhos, melhor.
Foi essa mesma culpa que me paralisou de medo no dia da minha 1a. comunhão na gigantesca Catedral de Petrópolis, diante de meus familiares, invisíveis para mim diante da multidão que ocupava toda igreja. Procurava meus pais e não os encontrava. Sentia-me estranhamente solitário na "casa de Deus".
Depois de cumprir todo o cerimonial, exaustivamente treinado pela Irmã, recebi a hóstia sagrada, segurando um pratinho de prata como apoio. Lembro-me do reluzente sapato preto engraxado por meu pai e a camisa de manga comprida e quente, engomada com perfeição por exigência da cerimônia religiosa.
Do momento que recebi a oferenda das mãos do padre, o pior aconteceu. Apesar das muitas orações para me redimir diante dos pecados cometidos, ainda me encontrava impuro. A hóstia sagrada me denunciou e colou no céu da boca. O que se seguiu foi uma enorme angústia e medo, muito medo. Não conseguia abrir a boca, acreditando que a hóstia se transformaria em "carne e sangue de Cristo" com me avisaram. Chorei de medo e culpa em silêncio, apenas as lágrimas denunciavam a dor que sentia, e que foram interpretadas por muitos como felicidade.
Depois de alguns minutos, a hóstia se dissolveu, assim como o restante da cerimônia para mim. Não tive coragem de dizer aos meus pais o que havia acontecido e não disse até hoje. Terminei o dia entristecido e molhei o travesseiro com lágrimas, antes de adormecer.
Agora não importa mais. Entretanto, comunguei pouquíssimas vezes depois, até decidir nunca mais fazê-lo. Esse foi o primeiro passo para romper com a Igreja Católica e seus dogmas. Mas posso garantir-lhes, que o Deus que eu creio e a fé que guardo em meu coração, como uma centelha divina, crescem a cada dia.
Esta semana sepultei de vez, qualquer vestígio de culpa ou pecado que ainda existiam dentro de mim. Não temo mais a Deus, ele está do meu lado, e o que é melhor, temo cada vez menos a minha consciência à medida que a expando.
É bom saber que não pertenço a esse mundo. Acredito de verdade que estamos aqui de passagem. Que nada possuímos e nada pode nos possuir. Que a FÉ é o único refúgio que tenho para estar junto a Deus, meu criador, que ao ter me tocado com sua centelha de vida, me permite estar aqui e agora, vivo, muito vivo!

quarta-feira, 17 de abril de 2013

O passado e o futuro não existem no presente!

Tenho que tomar decisões definitivas que adiei por mais de uma década. Agora chegou o momento de reescrever a minha história. Não que tudo que vivi fosse ruim, mas como um aluno disposto a aprender cada vez mais, não posso me dar o desfrute de achar que tudo está do jeito que imaginei. Se a cada amanhecer me reconstruo, não tenho como acreditar que a minha vida já me supre emocionalmente e espiritualmente.
Estou de mudança. Estou me desprogramando e reprogramando. Chegou aquele momento crucial que decido dar início à grandes mudanças. Não tenho mais como esperar e por conta dessa impaciência que me envolve, parto para ação.
Se estou acelerando isso significa que cansei de puxar ou empurrar quem está ao meu lado. Vai andar sozinho agora e se quiser a minha presença, que acompanhe meus passos.
Quando vivo esses períodos, tenciono as relações humanas. Vou falar o que penso sinceramente. Vou cobrar mudanças, considerando que estou mudando, me tornando melhor. Isso quer dizer, que se for necessário, vou jogar o que eu quiser no ventilador!
A vida tem me mostrado o lado bom dos defeitos. Por vezes eles me são bem úteis, mas dentre os que mais aprecio, são aqueles que não são meus, como o egoísmo. Sempre fui pouco egoísta e muito disponível, um cara de coração aberto para ajudar. Mas agora decidi não estar mais disponível para muitos dos meus semelhantes. Vão ter que aprender a se virar e eu não estarei nem um pouco interessado em como irão proceder. Já me disseram que isso não é ser egoísta, mas o fortalecimento de minha autoestima. Eu posso ser muito intenso, tanto para o bem como para o mal.
Lendo uma crônica da Martha Medeiros, publicada no último domingo, me identifiquei com a atitude saudável da escritora. Fuja de gente desequilibrada e arrogante, ela escreveu. Estou me esgotando muito rápido com pessoas que não aprendem com a experiência e se quer conseguem ter a dimensão que suas atitudes tomam nas relações diárias e  no seu entorno imediato.
Por isso, estarei disponível para poucos a partir de agora e mesmo assim, desde que não me sinta usado ou levando a pior. Esse post deveria ter o título: Chega!
Sinto que só posso realizar o que tenho em mente se agir assim, caso contrário, o dia-a-dia me toma por completo. Sinto-me sobrecarregado por ser eficiente, competente e disciplinado. Preciso realizar meus projetos e para tal, estou deixando para trás tudo e todos que se transformaram em um fardo inútil para carregar, inclusive os sentimentos ruins que surgiram por conta dessa situação, também ficarão para trás.
Estou seguindo a minha vida com passos firmes agora e não me peça para olhar para trás. O passado teve o seu valor para ser quem eu sou hoje, mas está morto! O futuro é uma fantasia inútil que apenas gera ansiedade e um brutal desgaste energético. Prefiro o presente. No presente eu posso atuar diretamente. No presente eu sou tudo e tudo posso. O presente bem vivido traz a certeza de um passado bem aproveitado e lança uma luz de esperança no futuro.
Aprendi que o maior legado não é o que deixarei para o futuro, mas o que deixo no presente, no contínuo presente que nunca se esgota. Dessa forma, vejo a profundidade de cada palavra, de cada gesto, de cada atitude e de cada exemplo. Pensamos que existe passado, presente e futuro, mas só o presente vivido intensamente tem significado, o passado e o futuro não existem.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

As diferenças são os desafios de uma vida.

É ao mesmo tempo desafiador e frustrante conviver com pessoas tão diferentes. Diferentes por conta de um comportamento visto por mim como materialista, superficial e até mesmo tolo. Um desafio do qual não tenho como fugir.
Tenho aprendido a conviver com pessoas que não me dão a chance de mostrar quem eu sou. Já demonstraram que não apreciam a minha presença.
Estou aprendendo que posso ser alvo de críticas por aqueles que jamais poderia supor. Pena que essas críticas ainda não foram verbalizadas, pois eu poderia aprender com elas, validando-as ou não.
Mas eu percebo o incômodo que causo quando um vazio que se constrói nos encontros. É frustrante conviver com um acerto que parece não chegar.
Vejo-me em parte refletido em muitas pessoas, que diferente de mim, não se colocam na posição do outro e nem possuem a minha coragem de deixar transparente quando não aprecio atitudes desequilibradas, palavras nocivas e comportamentos destrutivos. Aprendi a ouvir, para depois falar.
Já me disseram que a minha habilidade em dissecar as pessoas pelo seu discurso cria constrangimentos, mas eu tenho uma percepção da alma humana que não pára de se expandir, mas aprendi a guardar o silêncio e as críticas para mim mesmo, na maioria das vezes.
Hoje mesmo falei com uma amiga que a confiança perdida nunca se recupera. E que a crítica que faço não é destrutiva, mas um sinal do quanto eu me importo. Se passar a ficar em silêncio diante do que considero errado, é sinal que não me importo mais. E posso dizer para vocês que me acompanham, que tenho aprendido a fazer um silêncio interior maravilhoso! A viagem para dentro de mim é um dos maiores focos da minha vida.
Tenho diferenças com muitas pessoas, mas todas (inclusive eu) tem a oportunidade de um recomeço, pois posso me colocar no lugar delas em muitas situações. As diferenças existentes agora ficaram pequenas frente ao que temos em comum, como a convivência de muitos anos, de momentos inesquecíveis que guardo com profundo carinho em meio às minhas lembranças. Já aprendi a força que tem a compaixão e não faço julgamentos precipitados.
Existem semelhantes que não fazem parte da minha história. Optaram por não fazerem parte da minha vida. Não querem aproximação, preferem a distância que já me machucou silenciosamente no passado, porém, hoje não mais. Aceito que cada alma aqui tem o seu tempo de crescer, amadurecer, florir e frutificar. E se não posso amar a pessoa, amo o ser humano, como amo a humanidade que pertenço.
Nem sempre estar disponível é o suficiente. De que adianta dar um abraço para quem não sabe o valor da amizade? De que vale o beijo, se o amor não é correspondido? De que vale uma palavra quando não queremos ouvir?
Sou formal e educado com as pessoas que não conheço ou que não aprecio a companhia, mas estou disposto em muitos casos, a buscar com minha intuição o que cada um deixa transparecer de melhor. E quando vejo, sinto e valido, me aproximo. Por vezes, vejo no outro eu mesmo refletido e me surpreendo.
Pensei que todos fossem repletos de boas intenções com eu. Pensei que todos fizessem uso da mesma sinceridade que eu. Pensei que todos, assim como eu, buscassem um sentido mais amplo para nossa tão pequena existência...e me iludi mais uma vez, mas não perco as esperanças que se renovam dentro de mim continuamente.
Tenho ainda muito o que realizar, apesar de não saber o tempo que ainda tenho pela frente. E confesso que a incerteza nesses casos é melhor. Motivos para lutar nunca faltaram. O que sinto falta são de encontros e abraços com aqueles que me entendem e me amam. Queria tanto voltar a conviver com pessoas que a vida se incumbiu de nos separar. Lamento não ter criado vínculos mais profundos, apesar de que muitos vínculos que eu considerava indestrutíveis se romperam com o sopro de uma brisa!
Tenho muito orgulho do meu passado, apesar de achar que o meu presente podia ser melhor em muitos pontos. Sei que só depende de mim para mudar ou adequar-me no aqui e agora, mas a tristeza me abate quando os meus esforços não produzem efeito. Eu ainda acredito e confio em propósitos maiores.
Me orgulho de ser quem eu sou, não melhor do que ninguém, mas diferente e uma excessão em muitos pontos. Quem diria que aquele menino moreninho, tímido, silencioso e de largo sorriso se tornaria no que sou hoje?
Guardo a minha infância como o melhor período da minha existência atual. Eu fui uma criança amada e a felicidade sempre se estampava em meu sorriso e em meus pequenos olhos castanhos. O brilho nos olhos que tinha quando criança se foi para sempre, eu não o tenho mais, mas aquele menino nunca morrerá dentro de mim.
Agradeço a DEUS por me dar pais que me amam verdadeiramente. Esses pais nunca me faltaram, mesmo nos momentos dramáticos e difíceis e sempre poderão contar comigo. Fui e sou um filho agradecido, esforçado e que sempre os amará.
A minha infância foi rica em experiências positivas, mas também deixaram lembranças melancólicas que estão vindo à tona recentemente.
Fui preterido muitas vezes por meus parentes. Eu nunca recebia qualquer tipo de elogio, mas ouvi meus primos receberem elogios na minha frente, mesmo não sendo merecedores. Eu não era bonito ou inteligente o suficiente? Eu sempre me esforçava para ter algum reconhecimento, mas sempre perdia. Eu só não fiquei com a minha auto-estima destruída por causa dos meus pais, que me chamavam de príncipe e me envolviam com abraços, beijos e palavras de conforto, a cada vez que chegava abatido e com os olhos úmidos em casa.
Lembro-me que quando passei no vestibular para a UFRJ, aguardei pelos cumprimentos que não chegaram, mas ouvi críticas que morreria de fome sendo professor, que não teria uma futuro etc.
Mas não desisti pelos meus pais e hoje cheguei aonde muitos deles jamais alcançarão. Eu não morri de fome, mas morro de amor pelo que faço.
Amanhã estarei em sala novamente após 28 anos de magistério. Eu estou recomeçando mais uma vez.
Eu renasço a cada dia mais experiente e sempre acompanhado do bem mais valioso que recebi na vida: a companhia Divina que me acalenta em meio aos desafios de uma vida abençoada.

domingo, 13 de janeiro de 2013

O café dos benditos!

Acabei de passar um café cheiroso. Apesar de não ser um apreciador da bebida, adoro o cheiro do café. Faço café em casa raramente, pois acabo usando o solúvel por comodidade, diretamente no leite. Mas em compensação faço café para os professores do Liceu Municipal e do Colégio Pedro II. Faço café também na casa dos meus pais, na casa de meus sogros e quando visito amigos queridos, sem contar na casa de parentes mais próximos.
Tornou-se um ritual cheiroso em minha vida. Costumo acrescentar canela em pó ou aniz estrelado ou ainda, uma colherzinha de chocolate de 1a. qualidade. Assim, o cafezinho que brinco de fazer, passa a ter um toque gourmet. Aprecio cafés diferenciados (em pó ou grão). Sentir o aroma e o sabor é um ritual de muito prazer, que só faz sentido quando aproxima as pessoas. Não costumo tomar café sozinho, mas bem acompanhado. Sinto falta de longas conversas regadas a um café passado no coador de pano e servido em um bule bicudo.
Perguntei a minha mãe se ela podia me dar o seu bule para mim. Mas ela disse que existiam maneiras mais modernas de fazer um bom café e afirmou que eu estava envelhecendo. Achei o máximo e desliguei o telefone feliz e determinado em encontrar um bule das antigas.
Sinto falta de longas conversas com quem tenho afinidades. Faltam oportunidades para encontros. O tempo parece não ser suficiente, além de correr contra nós.
Muito me orgulho da minha memória. Sinto orgulho do que já vivi e acho que o saldo foi muito positivo, considerando que estou envelhecendo com muita tranquilidade. Sempre me deram mais idade do que realmente tenho, tanto por minha aparência física como por meus pensamentos.
Fui preterido na infância e adolescência por me comportar diferente. Lembro-me quando o meu avô materno, sorteou a sua atiradeira de infância entre os netos presentes. Eu fui o ganhador e fiquei revoltado em saber que era para matar passarinhos. Devolvi ao meu avô na hora, que ficou visivelmente constrangido. Sempre odiei pássaros em gaiolas. Todos que eu pude libertar, libertei. Libertas que será também, aprendi na adolescência.
Agora há pouco, minha filha e sua melhor amiga chegaram aqui em casa pedindo uma caixa de sapatos. A caixa serviria para colocar uma velha sabiá encontrada tonta em meio ao jardim. As meninas nos apresentaram a sabiá, que parecia estar abatida, mas não ficava de pé. Providenciaram alpiste obtido na vizinhança. Deram para a pobre ave água pela seringa e um pouco de banana amassada que foi consumida rapidamente. Agora foram levar a sabiá para passear e assim respirar ar puro.
Tenho para mim que estar presente (de corpo e alma) diante das situações cotidianas, é uma boa forma de viver leve e sem apegos desnecessários. Hoje achei surpreendente o que li na coluna de Martha Medeiros e que retrata perfeitamente o que venho sentindo. É arrebatador e libertador ao mesmo tempo.

"Benditos os que conseguem se deixar em paz. Os que não se cobram por não terem cumprido suas resoluções, que não se culpam por terem falhado, não se torturam por terem sido contraditórios, não se punem por não terem sido perfeitos. Apenas fazem o melhor que podem. Se é para ser mestre em alguma coisa, então que sejamos mestres em nos libertar da patrulha do pensamento. De querer se adequar à sociedade e ao mesmo tempo ser livre".
 
 

 
 

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Hoje é Dia de Reis

Hoje é o Dia de Reis. Acordei hoje querendo ouvir uma voz que me é familiar há 50 anos. E não perdi tempo. Logo que pude, liguei para uma das minhas primas mais amadas que aniversariava hoje. Apesar de estar distante fisicamente, a única forma de contato que tenho com ela é um celular, pois nem o seu endereço tenho. Mas não existe distância que diminua o que sinto por ela.
Fiz a ligação um pouco antes da hora do almoço, de forma a não interromper a sua refeição, pensei eu. As palavras trocadas foram poucas, mas suficientes para que eu soubesse que ela estava bem. Nossa amizade é antiga e por muito tempo aprendi, observando suas grandes limitações físicas, a ser um primo presente e disponível a ajudar. Foi bom ser ouvido e reconhecido depois de tanto tempo. Melhor ainda, ouvir a sua voz.
Cresci convivendo com as dificuldades e dramas que ela passou e nunca fui capaz de tratá-la com diferença. E olha que eu aprendi cedo o significado da palavra preconceito.
Havia dentro de mim um profundo respeito diante do sofrimento que ela experimentava diariamente. A paralisia cerebral trouxe um grande comprometimento em seus movimentos, mas não foi capaz de afetar o amor espontâneo e a cumplicidade que surgia entre nós. Apenas pessoas muito fortes seriam capazes de sobreviver diante de desafios dessa ordem. Assim, minha prima era uma guerreira aos meus olhos.
Meus primos e primas achavam que eu era bobo, afinal qual era a graça em brincar com ela? Pude sentir com clareza o quanto foi rejeitada por sua condição especial e os olhares preconceituosos que a excluíam continuamente da convivência do "mundo dos vivos".
Por outro lado, via uma relação de amor intensa com sua mãe. Esse amor também trazia um misto de revolta, que por vezes fugia ao controle.
Acompanhei-a bem de perto até a idade adulta e o agravamento de seu quadro físico. É uma agonia lenta e cruel, que a levou hoje a ficar a maior parte do tempo em uma cama. Sem contar, os remédios fortes usados para controlá-la, que prejudicam sua fala e seu raciocínio.
Não sou mais capaz de descrever o que sinto por ela. Eu apenas sinto o quanto a amo, apesar da distância física. O que vivi ao seu lado foi suficiente para solidificar uma amizade para sempre. O amor que ofertei e recebi, únicos. Isso faz uma diferença na minha vida e creio que na dela também, mesmo que não tenha a plena consciência.
Recordo-me da minha determinação em fazê-la andar de bicicleta sem rodinhas! Quantas vezes com muito orgulho a segurei para que pudesse dar pequenos passos. Era legal pedir para que me penteasse (quando eu tinha cabelo), ou quando ao voltar da praia, pedia a sua ajuda para retirar a pelinha das minhas costas!
E quanto aos seus inesquecíveis aniversários? O cachorro-quente maravilhoso, o bolo de amendoim, recheado de leite condensado e ameixa e o refrigerante de Q-suco?
Legal era ver quase toda família reunida para o ruidoso "parabéns para você"! Tínhamos muito o que comemorar. Ela era e é uma guerreira e a cada aniversário, mas uma vitória para ser comemorada. Esse momento era uma celebração para ela, pois nos via todos juntos.
 
Hoje vejo a minha filha agindo com a mesma paciência e carinho com uma amiga especial. Eu toda vez que vejo as duas juntas, preciso lutar para conter as lágrimas. Seria como sentir aquilo que já experimentei por muitos anos. Mas me orgulho muito de ter semeado esse amor desprendido em minha filha e vejam, eu sabia que tinha feito.
Hoje a minha prima irmã faz 50 anos. Pela primeira vez não vou poder abraçá-la, beijá-la e segurar as suas mãos. Não vai ser possível olhar em seus grandes olhos castanhos e brincar com sua idade. Não tínhamos muitos assuntos em comum, mas as mãos estariam juntas, assim como a nossa cumplicidade de tantos anos.
Já pedi a Deus por milagres e vê-la curada seria o maior deles. Mas tenho que aceitar a realidade, que esse milagre não aconteceu por uma razão que ainda desconheço. Mas eu creio que um dia Deus me dará a oportunidade de encontrá-la livre da prisão em que seu corpo vem se transformando. Nesse dia, estarei realizando um encontro tão esperado. O amor que sinto por ela estará intacto para esse encontro.
Parabéns, querida Lulu! Que Deus te guarde e abençoe em seu infinito amor.

Sentido

Sentido
Uma das melhores maneiras de dar um sentido para a vida, é procurar deixar o mundo um pouco melhor do que nós o encontramos. Autor desconhecido

Viver: renúncia, prazer, amor e leveza

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Petrópolis, Rio de Janeiro, Brazil
Um professor com alma de aluno.