segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Adaptações

Está difícil a minha adaptação em novos papéis. Está me exigindo uma dose extra de coragem e desprendimento que nunca vivenciei antes.
Nunca me disseram que um dia meus pais trocariam de papel comigo. Eu deixaria de ser filho e passaria a agir como pai e mãe. A sensação de estar órfão é real. Não posso mais contar com os meus pais como um dia contei. Não deixaram de me amar, mas sinto que precisam de mais atenção que no passado. Algo está acontecendo: estamos envelhecendo!
As notícias precisam ser cuidadosamente filtradas ou até mesmo omitidas, em certos casos. Tenho que apresentar as notícias mais fortes com muita destreza. Isso significa fazer um esforço para ser imparcial, cometido e frio diante das situações que se apresentem. E rapidamente, mudo de assunto, esvaziando-o para não dar margens à especulações desnecessárias. Nunca fui bom em dar notícias ruins, pois sofro antes de falar.
Mas quando as notícias são boas, valorizo-as sempre e mostro que sou parcial, esfuziante e muito otimista ao relatá-las. Vejo os efeitos benéficos que elas trazem. Há uma injeção de esperança forte que passa a durar muitos dias.
Tinha um efeito surpreendente a música nos dias de faxina ou quando a barra pesava, assim como cantar, naquele estilo "quem canta seus males espanta". Flores não podiam faltar na jarra de cristal nos domingos, compradas na feira do dia anterior.
Encontro-me numa situação muito especial. Sou pai de minha filha e minha mãe. Apesar da imensa diferença de idade, possuem muitas atitudes em comum. A teimosia é uma das mais marcantes.
A primeira quer descobrir o mundo e a outra acha que já descobriu tudo o que queria. Eu me torno um elo de ligação entre duas gerações e tenho que dar conta desse duplo papel. Ambas precisam de meu apoio emocional e incondicional em todas as situações. Minha mãe me trouxe ao mundo e eu trouxe minha filha. Tenho uma ligação forte com elas e compromissos para toda vida com as duas.
Essa é a hora da retribuição que vou assumindo gradativamente. Mas é difícil ver que não posso contar com minha mãe "para o que der e vier". Suas limitações emocionais já são perceptíveis, apesar da forte relação de amor que nos une. Preciso poupá-la de muitas situações, pois sei que não é mais tão resistente. Os longos papos que tínhamos sobre a nossos desafios diários na cozinha, rendiam sempre muitas gargalhadas e reforçavam sempre nossa cumplicidade. Muitas vezes, meus primos e primas compartilhavam conosco assuntos comuns e ficava tudo muito animado. Sempre era servido um café quentinho e biscoitos para acompanhar. Mas o que atrapalhava um pouco era quando decidiam fumar. Eu saía abrindo portas e janelas e reclamava como de costume.
Já a minha filha, tem um longo caminho de aprendizado e quero estar presente como pai e professor. Por que não? Não quero que ela aprenda com a vida, como dizem muitos pais. Eu quero dar o meu apoio total para ela resistir ao que a vida lhe preparar.
Aqui em casa o durão sou eu. Sou aquele que tem o papel de colocar limites e dizer não. Nas situações emergenciais também. Mas quando não tenho que atuar assim, sou muito afetuoso e palavras de incentivo, exigência e amor são mescladas.
A mãe faz um contra-ponto da flexibilidade e negociação, colocando seus próprios limites. Mas o que é mais importante: temos um discurso afinado e integrado na educação de nossa filha. Papai e mamãe trabalham juntos desde que assumiram esse papel há 3 anos e 8 meses.
Mas muitas vezes, sinto falta de ser filho apenas. Era bom viver no ambiente de segurança que cresci. Nossa família era uma fortaleza e tanto e continua assim, apesar dos percalços previsíveis.
Sempre pude contar com meus pais. Mas agora está ficando diferente. À medida que a idade avança lentamente, tornam-se mais dependentes de mim e o papel de filho vai desaparecendo.
Mas apesar de estar ficando órfão lentamente, deixaram-me um exemplo que me capacita a agir com minha filha como pai, com segurança e ciente dos compromissos que me cabem. Quanto aos "meus professores" continuarei presente em suas vidas até quando for possível.
O que me deixa surpreso é estar no meio de duas gerações e aprendendo muito com ambas, ao mesmo tempo!
Agora posso colocar em prática tudo que aprendi, adaptando ao meu estilo pessoal. Essa é a forma que eu e meus pais iremos nos perpetuar no mundo, através dos valores construtivos que passarei para minha filha. Estou certo que ela saberá valorizar essa herança, aprimorando-a.

Um comentário:

Ana Garrido Arquiteta disse...

Com certeza tenho muita fé de que nossa filha irá valorizar o aprendizado e amor que estamos dando a ela.
Beijos !

Sentido

Sentido
Uma das melhores maneiras de dar um sentido para a vida, é procurar deixar o mundo um pouco melhor do que nós o encontramos. Autor desconhecido

Viver: renúncia, prazer, amor e leveza

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Um professor com alma de aluno.