quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O direito de não ser uma máquina

Gosto de tréguas, pois nunca me dei o direito de ser uma máquina.
A trégua é o momento em que me permito respirar, ponderar, experimentar e visualizar tudo que acontece ao meu redor e frente ao que preciso responder. As relações pessoais também são incluídas neste momento. É aquela velha história que todos os anos acontece. O final do ano se aproxima e boa parte da humanidade se toca que protelou muitas resoluções para depois, para quando tivesse mais tempo. Por que todas as pessoas reclamam da "falta de tempo"? Será que suas vidas já estão prestes a acabar? Usar o tempo a seu favor é uma prática que poucos conseguem sustentar.
A questão é que o depois tornou-se agora e temos que cumprir o ritual tolo de entrar no novo ano sem pendências e com todas as metas e objetivos estipulados cumpridos, como se isso fosse possível e fundamental.
Para muitos que conheço, o mês de dezembro é o mês do atropelo, da ansiedade e do esgotamento. Eu já fui assim, ao ponto de ficar muito cansado durante as festas e não aproveitá-las como gostaria.
Hoje procuro manter o ritmo ao longo de todo ano, apesar de sentir o cansaço para agir com rapidez e eficiência. É uma preguiça gostosa que coloca que não tenho que correr, mas orienta a  não perder o foco de meus objetivos e compromissos. Vou fazendo o que me cabe em meu dia-a-dia, sem esperar a solução de todos os desafios para os próximos 31 dias de dezembro de 2010.
Tenho trabalhado bastante e me esforçado também. Tive problemas com a minha coluna e me descobri hipertenso durante um mês.
Acordei, depois de uma prazeirosa noite, com dores no pescoço que superavam um torcicolo básico. Depois de três dias punks, regado a muitos analgésicos, antiinflamatórios e rock and roll pesado, parti para o hospital e fui espetado até na mão, recebendo um coquetel de medicamentos. Fiquei em uma maca estreita por mais de uma hora e quando levantei rodou tudo! Melhorei um pouco, mas as dores estavam presentes, e como!
Procurei com urgência o meu médico, um robusto ortopedista. Ele me sugeriu não levantar pesos  e receitou-me medicamentos que acabaram as dores rapidamente, mas detonaram com meu estômago.
Hoje acordei com gosto de guarda-chuva na boca! E eu nunca comi essa iguaria antes!
Agora imagine o presente que recebi de meu cardiologista no dia do meu aniversário!
Parabéns, você é hipertenso! Bem vindo ao time, disse ele, sorrindo com seus olhos asiáticos.
Passei a tomar um minúsculo comprimido por dia, religiosamente. Corria o risco de morrer do coração ou ter um AVC antes de entrar na casa dos 50 anos. Toda a situação era muito nova para mim. Parecia que a morte, de uma hora para outra, estava bem próxima. Mesmo assim, me dei o direito à duvidar e aceitar de imediato. Morrer? Não agora! rsrsrs
Mas havia alguma coisa herrada comigo. Por que todos me perguntavam se eu estava deprimido? Ninguém sabia que eu estava hipertenso. Fui muito abraçado e amigos diziam-se preocupados com a tristeza em meus olhos ou com meu impactante silêncio. Eu dizia para todos que agora estava bem, apesar da dificuldade para abrir os olhos ao acordar de manhã. Parecia que algo escapava de minhas mãos e eu não tinha a menor ideia do que estava acontecendo. Passei a abusar de café puro e pimenta, mesmo não gostando deles.
Não tive forças para sentar aqui e escrever. Não faltavam acontecimentos em minha vida para serem relatados, mas não havia jeito de integrar meus pensamentos com as palavras. 
Descobri que minha pressão arterial andava muito baixa, tão baixa que fui da escola até minha casa, como os faróis do carro apagados e nem percebi que já passavam das 22h30min.
Procurei o meu cardiologista, homem de poucas palavras, coloquei o quanto tudo parecia estranho e sorridente me disse:
Parabéns! Você não é hipertenso! Use metade do comprimido e se a pressão continuar baixa, suspenda tudo.
Acho que voltei ao mundo dos vivos. Pior é que até hoje não encontrei ninguém para confirmar esse diagnóstico. Não consigo quem tire a minha pressão. Ainda me sinto meio letárgico, mas afinal de contas, pressa para quê? O ano de 2010 ainda não acabou. Amanhã, eu prometo, vou passar a limpo essa dúvida.

Nenhum comentário:

Sentido

Sentido
Uma das melhores maneiras de dar um sentido para a vida, é procurar deixar o mundo um pouco melhor do que nós o encontramos. Autor desconhecido

Viver: renúncia, prazer, amor e leveza

Minha foto
Petrópolis, Rio de Janeiro, Brazil
Um professor com alma de aluno.